Pertencimento
Quinta-feira, 27 de março de 2025, 20:39.
Há alguns minutos, li a frase: “Todo mundo fala sobre a importância de se destacar, mas nunca sobre os benefícios de pertencer”, na página 185 do livro Maame, de Jessica George. Segundos depois, desabei em lágrimas. Um choro epifânico.
Tateei com as mãos o que estava ao meu alcance para expelir a epifania que acabara de me atingir. O bloco de notas do celular não era suficiente. Peguei o computador do trabalho — um dos meus maiores inimigos atuais e um dos responsáveis indiretos pelo meu afastamento da escrita compartilhada.
Foram muitos os motivos do meu sumiço. A maioria bem mais grave do que a simples procrastinação. Envelhecer não deixa de ser surpreendente. Para você e para os outros. As consequências são incontroláveis e infungíveis.
Mas, enigmas ou satisfações à parte, voltemos ao choro.
Não, voltemos um pouco. Voltemos ao texto de “Feliz Ano Novo” que eu nunca publiquei.
O título seria “Você é importante”. Nele, eu queria ir contra todas aquelas postagens que nos provocam a nos dar menos importância como forma de libertação. Não discordo totalmente desse conselho, mas, no texto não publicado, eu queria compartilhar com você uma sensação que vinha me acompanhando: entre os infinitos conteúdos e as infinitas conclusões de que, às vezes, é preciso se enxergar “desimportante” para viver melhor, eu estava sentindo que fomos, aos poucos, parando de botar a cara.
Afinal, se não tem importância, pra que fazer? Pra que ir? Pra que falar? Pra que opinar? Pra que criar? Pra que tentar?
No meu rascunho, o parágrafo acima foi bem desenvolvido. Mas, depois do choro incontrolável que me atravessou há pouco, percebi que não preciso explicar tanto. Foi como se eu tivesse sido interpelada por uma mensagem divina — sem exagero algum.
Bem... Vamos lá.Ainda hoje, minha família é minha única experiência de pertencimento. Isso sempre me incomodou. Por mais amparada e amada que eu me sentisse, sempre desejei fazer parte de outra coisa.
O ser humano parece pertencer a vários lugares, a vários grupos. Eu não. E se eu não sentia pertencimento a nada além da minha família, havia algo de errado comigo.
Obviamente — ou não —, isso não quer dizer que me sinto uma completa estranha em outros meios e relações. Pelo contrário. Com o passar dos anos, sinto que tenho cada vez mais jogo de cintura para transitar por diferentes grupos e relacionamentos.
Mas transitar não é pertencer.
E lá no fim de 2024, quando eu desejava voltar a me sentir importante, o que eu realmente queria era me sentir parte de algo que me desse segurança para simplesmente ser tudo que eu sou e, consequentemente, me sentir importante.
Também é óbvio — ou não — que esse pedido não é algo que cai do céu. “Quero me sentir parte” e puft, acontece. O próprio contexto no qual a frase foi citada no livro — contexto esse que eu, mulher negra, também reconheço profundamente — não é algo que poderia ser resolvido de forma mágica.
Mas só de descobrir o que tem me faltado, sinto que encontrei um norte para iniciar uma busca, que, espero eu, se torne um encontro.
Pertencimento.
É como se uma luz tivesse se acendido para mim. Uma luz tão forte que me fez voltar — eu sempre volto — aqui sem ensaio.
No texto que não foi publicado, eu encerrava desejando que:
"Em 2025, que você se veja como alguém importante para criar e expressar suas ideias e intenções…"
E eu até poderia terminar assim novamente, mas, após a minha epifania, isso parece muito pouco.
Então, que em 2025 você se sinta parte de diferentes algos que te façam segura e importante.
Isso muda tudo.
Até sexta-feira. Qualquer uma delas. Sem pressão. Apenas acompanhe essa fuga.
Beijos,
Lare.


Legal que você sempre volta pra cá, e eu também. Adoro seus textos. Que a gente sempre se encontre, Lare.
Lare, que texto bonito! Obrigada por compartilhar. Também ressoou aqui.